EU VI UM "SEMIDEUS" CHORAR EM PARINTINS
Era
um ano de efervescência cultural numa pacata ilha amazônica, caracterizado pelo
trabalho intenso dos padres e missionários italianos que conduziam as agendas
da Catedral de Parintins, nos idos anos de 1980, indubitavelmente focadas nos
temas da educação, da cultura, da assistência social e do cumprimento de
diretrizes da legislação. Neste ano o autor deste artigo desenvolvia atividades
como instrutor do SEBRAE-AM na realização de Cursos de Formação de CIPAS e,
convidado pela Prefeitura local, teve o prazer de realizar este curso para uma
plateia integrada por professores, servidores públicos, representantes
sindicais e de trabalhadores do município. Ao término do curso, surgiu um
convite de uma querida professora local para a contemplação do pôr-do-sol no
rio Amazonas, na belíssima orla da cidade. Na época, um barzinho elegante,
entre um arvoredo imponente e de nome estranho (Piroca da Gadelha) resplandecia
às margens do poderoso Rio Amazonas, como a registrar num arco-íris o esplendor
das civilizações indígenas que singraram naquele espaço geográfico e histórico.
E eu ali, feliz, tomando água de coco e cervejinha bem gelada, não podia caber
em mim observando tantas coisas bonitas que a natureza nos presenteia. Eis que
de repente, a professora Gadelha me falou que teríamos ali uma reunião de
amigos dedicados à cultura brasileira, na literatura e na música. Tomei um
susto quando logo em seguida chegou e tomou assento em nossa mesa o poeta
Thiago de Melo. Minutos depois, acompanhado de um violão e um sorriso de prazer
de brasilidade, o cantor Chico da Silva também toma assento àquela mesa já
rodeada de admiradores da arte e da cultura que aquela ilha abraça e expõe para
a vida. Foi de fato um momento de magia, onde podíamos ter entre uns goles de
cerveja, uma audição da poesia ao vivo narrada por Thiago de Melo, como a
lembrar dos “girassóis nas janelas” entre sequências musicais de Chico da
Silva.
Depois
de relembrar o processo de concepção do Estatuto do Homem e sua história de
exílio no Chile, marcado pela forte saudade das coisas do Brasil, dos sabores e
afetos aqui deixados. "Faz escuro, mas eu canto, / Porque a manhã vai
chegar", bradou forte. “Thiago deixou algumas lágrimas rolarem em seu
rosto, que foram aumentadas quando ele falou de sua amizade com o poeta Pablo
Neruda. Nesse momento, imaginei que tivesse diante de um fato em que havia a
realeza de um semideus a chorar, literalmente, enquanto o sol baixava seu
esplendor nas águas do garboso rio Amazonas. Aquilo era magia¿; era um instante
daqueles em que pensamos que deveriam parar no tempo¿ Para completar aqueles instantes
de puro prazer, o ilustre Chico da Silva nos brindava cantando os versos da
música Sonhos de Menino, que exaltava o padre Cícero – um outro bondoso
brasileiro - Foi uma reunião de oração
em prosa e verso, que até hoje me alegra o coração e a alma, naquela ilha de
magia amazônica.
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Cristóvam Luiz é professor e
escritor, autor do livro “O Mapa, a Mina e os Sonhos – Uma pequena aventura na
Amazônia”.

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