EU VI UM "SEMIDEUS" CHORAR EM PARINTINS

 

Crédito: Portal do Marcos Santos.

Era um ano de efervescência cultural numa pacata ilha amazônica, caracterizado pelo trabalho intenso dos padres e missionários italianos que conduziam as agendas da Catedral de Parintins, nos idos anos de 1980, indubitavelmente focadas nos temas da educação, da cultura, da assistência social e do cumprimento de diretrizes da legislação. Neste ano o autor deste artigo desenvolvia atividades como instrutor do SEBRAE-AM na realização de Cursos de Formação de CIPAS e, convidado pela Prefeitura local, teve o prazer de realizar este curso para uma plateia integrada por professores, servidores públicos, representantes sindicais e de trabalhadores do município. Ao término do curso, surgiu um convite de uma querida professora local para a contemplação do pôr-do-sol no rio Amazonas, na belíssima orla da cidade. Na época, um barzinho elegante, entre um arvoredo imponente e de nome estranho (Piroca da Gadelha) resplandecia às margens do poderoso Rio Amazonas, como a registrar num arco-íris o esplendor das civilizações indígenas que singraram naquele espaço geográfico e histórico. E eu ali, feliz, tomando água de coco e cervejinha bem gelada, não podia caber em mim observando tantas coisas bonitas que a natureza nos presenteia. Eis que de repente, a professora Gadelha me falou que teríamos ali uma reunião de amigos dedicados à cultura brasileira, na literatura e na música. Tomei um susto quando logo em seguida chegou e tomou assento em nossa mesa o poeta Thiago de Melo. Minutos depois, acompanhado de um violão e um sorriso de prazer de brasilidade, o cantor Chico da Silva também toma assento àquela mesa já rodeada de admiradores da arte e da cultura que aquela ilha abraça e expõe para a vida. Foi de fato um momento de magia, onde podíamos ter entre uns goles de cerveja, uma audição da poesia ao vivo narrada por Thiago de Melo, como a lembrar dos “girassóis nas janelas” entre sequências musicais de Chico da Silva.

Depois de relembrar o processo de concepção do Estatuto do Homem e sua história de exílio no Chile, marcado pela forte saudade das coisas do Brasil, dos sabores e afetos aqui deixados. "Faz escuro, mas eu canto, / Porque a manhã vai chegar", bradou forte. “Thiago deixou algumas lágrimas rolarem em seu rosto, que foram aumentadas quando ele falou de sua amizade com o poeta Pablo Neruda. Nesse momento, imaginei que tivesse diante de um fato em que havia a realeza de um semideus a chorar, literalmente, enquanto o sol baixava seu esplendor nas águas do garboso rio Amazonas. Aquilo era magia¿; era um instante daqueles em que pensamos que deveriam parar no tempo¿ Para completar aqueles instantes de puro prazer, o ilustre Chico da Silva nos brindava cantando os versos da música Sonhos de Menino, que exaltava o padre Cícero – um outro bondoso brasileiro -  Foi uma reunião de oração em prosa e verso, que até hoje me alegra o coração e a alma, naquela ilha de magia amazônica.

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Cristóvam Luiz é professor e escritor, autor do livro “O Mapa, a Mina e os Sonhos – Uma pequena aventura na Amazônia”.

 


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