PATRIMÔNIO EM DECADÊNCIA: POR QUÊ PERMITIMOS ISSO?
*Por Cristóvam Luiz
Para entender bem a questão do glamour
que viveu a cidade de Manaus no século passado, basta mergulhar umas poucas
horas na ampla literatura regional ou nas teses apresentadas em nossas
universidades. Um bom exemplo é a leitura da Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação
Sociedade e Cultura na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas, por João
Luiz de Souza, sob a orientação da Prof.ª. Drᵃ.
Marilene Corrêa da Silva Freitas, onde o autor aponta os grandes eventos que
ocorreram na cidade de Manaus entre os séculos XIX e XX, envolvendo os atores e
os espaços culturais da nossa Belle Époque.
Muitos foram os historiadores,
engenheiros renomados e com expertise internacional, pesquisadores de alta
performance na gestão pública que, num passado recente, deixaram registros tão
importantes, que precisam ser mais valorizados pelas nossas academias e
instituições de ensino da atualidade. É preciso conhecer por exemplo a história
da construção do Teatro Amazonas (Idealizada pelo Governador Eduardo Ribeiro),
do Mercado Municipal (projetado pelo engenheiro francês Alexandre Gustave Eiffel,
que criou a Torre Eiffel de Paris), o prédio do Instituto Benjamin Constant
(que abrigou o primeiro Museu Botânico de Manaus – dirigido por João Barbosa
Rodrigues - que revelou o famoso Purussaurus brasiliensis) e outras
dezenas de referencias da nossa valiosa cultura amazônica.
Uma referência arquitetônica para
a paisagem do centro histórico de Manaus,
também muito importante para nossa história, e que está ligada aos registros de tombamento
do nosso Patrimônio Cultural, trata-se do conhecido Palácio Rio Branco, localizado
na Praça Dom Pedro II, construído pelo governo do Estado no século XX, entre os
anos de 1905 a 1938, com seu estilo de imponência e beleza eclética, revivendo
uma época de grandes obras e realizações de um período dourado pelas riquezas geradas
pelo ouro negro: a “hévea brasiliensis”. Idealizado para ser a sede da antiga
Chefatura de Polícia, este prédio não teve seu uso para os fins propostos. O
Palácio Rio Branco foi inaugurado em 7 de setembro de 1938 pelo então
governador interventor Álvaro Botelho Maia, cujo local serviu às atividades provisórias
do Tribunal de Contas do Estado. O prédio do Palácio Rio Branco ficou após a
sua inauguração sob a responsabilidade da Assembleia Legislativa do Amazonas -
ALEAM.
Uma curiosidade interessante,
porém, é que no ano de 1968, segundo apontamentos feitos pelo jornalista
Durango Duarte, o prédio do Palácio Rio Branco foi recuperado, revivendo sua
beleza arquitetônica, numa ação do governo de Danilo Areosa. De acordo com os
registros efetuados em matéria publicada em O Jornal, em 10 de novembro de 1968
(veja no link https://idd.org.br/jornais/a-recuperacao-do-palacio-rio-branco/.
Entre os anos de 1963 e 1972, a Assembleia Legislativa ocupou seis salas de
aula do Instituto de Educação do Amazonas – IEA, deixando de lado o velho
Palácio da Praça D. Pedro II. Entretanto, em 1971 a Assembleia Legislativa do
Amazonas passa a funcionar no Palácio Rio Branco, mantendo a preservação do
Patrimônio Histórico, os móveis rústicos de valor histórico e toda a beleza
arquitetônica do ambiente. Durante 34 anos a ALEAM manteve e ampliou as suas
instalações, com adaptações de prédios anexos, até que, no ano de 2006
transfere suas atividades para um complexo arquitetônico construído na Avenida
Mário Ypiranga, no Parque Dez de Novembro.
Depois da transferência da ALEAM vários órgãos da administração
pública funcionaram no Palácio Rio Branco, entre os quais um anexo de
atendimento durante a administração do Prefeito Arthur Neto. Também funcionou o
Conselho Municipal de Cultura - Concultura. Todavia, no ano de 2021, o
jornalista Juscelino Taketomi, em edição do Jornal Em Tempo (https://emtempo.com.br/391583/opiniao/palacio-rio-branco-o-silencio-do-poder/),
constatou a incompetência dos gestores municipais que usaram aquele prédio, que
a cada dia era deteriorado e saqueado. Com exceção do Palacio Rio Branco, o
prédio anexo sofreu séria decadência.
É fundamental ressaltar que,
apesar de toda essa riqueza histórica e arquitetônica, muitos desses
patrimônios vêm enfrentando processos de abandono e deterioração ao longo dos
anos em Manaus. O descaso com a manutenção adequada, aliado à falta de
políticas públicas eficazes de preservação, coloca em risco não apenas a
memória coletiva, mas também a identidade cultural da cidade.
Foi justamente pensando em dar
uma direção eficaz para a recuperação deste Patrimônio Histórico, este autor
teve o prazer de publicar um artigo (https://amazonfiatlux.blogspot.com/2024/06/um-preludio-criacao-do-museu-de.html)
apontando os meios culturais adequados
para criar um Museu de Geociências, restaurando as instalações do Palácio Rio
Branco - nada mais útil para uma proposta séria de valorização cultural, e sobretudo de valorização das geociências da
Amazônia.
Para surpresa de muitos
profissionais que apoiaram essa Proposta, entre os quais arquitetos, geólogos,
historiadores, jornalistas, professores, empresários e estudantes de um modo
geral, que aplaudiram essa iniciativa cultural em evolução, surgiu uma notícia
nada agradável de que aquele prédio já estava sendo concedido para uma ONG
denominada Instituto Doimo, que seria restaurado para a viabilização de uma
Loja de Móveis e Eventos de Cursos de Empreendedorismo, segundo aponta o
diretor desta entidade (Instagram: doimofundacaoepalacioriobranco_manaus) .
Neste caso, para valorizar o centro histórico de Manaus, não custa perguntar à
população em geral: O que é mais importante para preservar o Palácio Rio
Branco: Uma Loja de Móveis ou um Museu de Geociências para o Amazonas? Creio
que ainda dá tempo de respostas e decisões de adequadas de governabilidade para
esse imbróglio.
*Cristóvam Luiz é professor,
microempresário e escritor. Contato: cristovamluiz01@gmail.com

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